Descobri que sou da
geração X (nascidos entre 1965 e 1980): aquela que transitou entre o mundo
analógico e digital. Nasci em uma época em que o tempo passava mais devagar...
Não existia essa pressa e urgência, que vieram com o mundo digital.
Então me lembrei das
coisas que fazíamos em nosso tempo ocioso. E ri sozinha, ao lembrar de como
éramos criativos!
Em nosso tempo livre,
inventávamos inúmeras coisas pra fazer. E venhamos e convenhamos - que algumas
eram perigosas! Vou listar abaixo as que eu me lembro:
- · passar cola nas mãos e deixar secar pra
tirar a casquinha;
- · enfiar agulhas debaixo da pele só pra
vê-las ficarem presas;
- · colocar fogo no Bombril, rodar, e fingir
que eram fogos de artifício;
- · fazer bichinhos de batata e legumes para
brincar;
- · fazer sopa de terra e flores;
- · passar o dedo na chama da vela acesa (não me lembro se era pra demonstrar coragem...); ☺
- · pingar a cera da vela quente e esperar endurecer;
- · comer gelo do congelador;
- · brincar de bichinhos, fazendo sombra na
parede;
- · brincar de 5 Marias, com pedrinhas ou
saquinhos recheados de arroz - que nós mesmos fazíamos;
- · colocar prendedores de varal nos dedos das
mãos, para fingir que eram unhas postiças;
- · colocar moedas debaixo de folhas de
papel e pintar com lápis para ver as figuras do relevo;
- · pintar bigodes, dentes, e etc. nos
personagens dos livros escolares,
- · enrolar-se nas cortinas para brincar;
- · passar trotes: ligávamos na casa de um
desconhecido e falávamos: "– Por favor. Olhe pela janela e veja
se tem um fusca verde parado na frente da sua casa. - Não tem? Ah… Vai ver que amadureceu!” ☺;
- · apertar as campainhas e sair correndo;
- · fingir que estava fumando, com bitucas
de cigarro dos adultos, ou com os cigarrinhos de chocolate da Pan.
Todas essas coisas, eu
mesma fiz. E creio que muitas outras crianças, também. Me lembrei de
algumas delas, ao assistir o vídeo.
E comentando com uma amiga, ela lembrou que tomava caldo de cana com gelo naqueles vidrinhos de papinhas da Nestlé, e fingia que era whisky, para imitar as atrizes de novelas. Meus vizinhos iam além quando se tratava de aprontar: pegavam marimbondos - acho que tiravam o ferrão, os amarravam em linhas e soltavam no meu quintal, para aterrorizar a mim e minhas irmãs! ☺
Quando me lembro de
tudo isso, penso no quanto tínhamos criatividade! Ou, como diziam antigamente:
tínhamos era o “bicho carpinteiro”!
Somos a geração que fez
a ponte entre o analógico e digital. Vivemos a infância brincando na rua.
Naquele tempo não havia muitos carros e nem os perigos de hoje em dia.
Crescemos usando
telefones fixos de disco, orelhão, assistindo a fitas VHS que alugávamos nas
locadoras; ouvindo fitas cassetes e revelando os filmes das máquinas
fotográficas. De vez em quando as coisas não saiam como o esperado: as fitas
cassete enroscavam (às desenrolávamos usando uma caneta ou lápis); e o filme queimava, ou as
fotos na ficavam boas...E era aquela decepção!
Usávamos fichas para o
orelhão. De vez em quando, o orelhão dava defeito e engolia as fichas. E
as filas? Quem não pegou uma, esperando outra pessoa terminar a conversa, para
poder falar?
Usávamos também, a lista
telefônica para procurar os telefones ou endereços. Procurávamos os
significados das palavras no dicionário “Aurélio”. Tenho um até hoje, aqui em
casa!
Mandávamos cartas
escritas à mão, pelos Correios. E que alegria sentíamos ao receber alguma! Não
existia e-mail ou Whatsapp.
Brincávamos de casinha,
pular corda, esconde-esconde, pega-pega, queimada, bets, peteca, bilboquê. De
“quando eu era mocinha...”, "cama de gato", telefone com fio feito de
barbante e latinhas. Os meninos também brincavam com pneus, de futebol, carrinho
de rolimã, de pião, pipa.
Saíamos pra brincar, e
voltávamos nos horários estabelecidos pelas mães e pais. Ou quando escurecia. Não
havia celular para monitorar. Quando alguns não voltavam no horário combinado,
sempre tinha alguma mãe gritando o nome do filho a plenos pulmões. E era aquela
bronca, quando o “sumido” chegava.
Somos a geração que sobreviveu: ao Neocid na cabeça pra matar piolhos (antigamente, quase todo mundo tinha piolho); às balas Soft (que de vez em quando, paravam na garganta); ao inseticida Detefon. Aos pirulitos de guarda-chuvinhas, que eram pura gordura que grudava na língua e no céu da boca. Aos suquinhos coloridos que eram vendidos na feiras-livres, em formatos de bichinhos. Ou, aos copos de Ki-suco, que eram pura tinta! Ah... Já ia me esquecendo dos AAS infantis, que chupávamos como bala! E dos Biotônicos Fontoura (uma vitamina, que continha álcool), e que alguns tomavam no gargalo! ☺
No banheiro, para dar a
descarga, tínhamos que puxar uma cordinha. Lembro que em muitos banheiros, não
tinha papel higiênico, mas folhas de jornal ou papel de pão, penduradas na
parede. Pra apagar a luz, usávamos a “pera”, que era um interruptor que ficava
pendurado num fio.
E as comidas? Comíamos
de tudo, naquele tempo! Moela e fígado de galinha. Rim, bucho de boi.
Lembro-me que ficava um cheiro horrível na casa... Língua e miolo de boi.
Tinha até o "bucheiro" que passava na rua, vendendo essas
"iguarias"... Eu e a minha irmã Lur amávamos limpar miolo de boi. E
minha mãe temperava, empanava e fritava. Comíamos com um gosto! Hoje não posso nem
pensar em comer essas coisas...
Lembro-me que o padeiro
passava na minha rua com a parte traseira do seu carro aberta, com pães doce,
mantecal com goiabada, e outras guloseimas. Era tudo tão gostoso!
Naquele tempo nada
tinha vencimento... Não tínhamos as facilidades que temos hoje.
Para fazer pesquisas da
escola, usávamos as enciclopédias de livros. O meu sonho era ter uma
enciclopédia Barsa! Para ver os mapas, usávamos o Atlas. Os cadernos eram encapados com aquele papel xadrez,
vermelho ou azul.
As roupas e sapatos
eram comprados duas vezes ao ano. E os irmãos mais novos, herdavam as roupas e
sapatos dos irmãos mais velhos. Não havia o consumismo que vivemos hoje em
dia.
Testemunhamos as
mudanças com a chegada da era digital: do telefone analógico para o digital e o
celular; do disquete para o CD e o pen-drive; da máquina de escrever para o
teclado do computador e notebook; da fita VHS para o DVD, e do DVD para o
streaming.
E hoje em dia, sinto até
uma certa tristeza ao pensar que meu filho mais novo e os meus netos, nunca
conheceram nada disso. Já nasceram na era digital! Aprenderam a
viver desde muito cedo, com uma infinidade de informações e imediatismo. Sempre
com acesso às telas. Ao mesmo tempo, creio que perderam em criatividade e
imaginação, que era o que mais tínhamos naquele tempo...
Por outro lado, nós da
geração X fomos forjados pelo tempo: sem pressa...
Tivemos o privilégio de
conhecer o mundo antes das telas. Atravessamos as mudanças aprendendo na marra –
muitas vezes, sem manuais...
"Carregamos algumas saudades que não cabem em fotografias. Carregamos dentro de nós, dois mundos. Um mundo que ensinou a esperar e outro que ensinou a acelerar. Somos uma geração de travessias. Vimos o passado desaparecer aos poucos e tivemos coragem de caminhar para o futuro. Nós somos a Geração X: filhos de um tempo que passou, mas que nunca passará completamente dentro da gente!"
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